domingo, 18 de abril de 2010

Falta-a-ser humano


Certa vez vi uma citação de Fernando Pessoa (1888- 1935) onde ele diz “Que seria do mundo se fôssemos humanos?". Boa pergunta!
Tão boa que me fez perguntar o que ele quis nos questionar.
Este é o fato onde temos de tudo para cair no imaginário que ele está nos chamando de animais por tabela, mas não acho que foi por aí que Fernando Pessoa tentou mirar.
Rebaixar-nos ou nos vangloriar a categoria animal, está longe de ser a questão. A palavra racional, atrás do nosso animal, não está ali por acaso. Faz função!
Fizemos função.
Assim como os irracionais. Porém não estamos onde estamos pela falta de racionalização, pelo contrário. Racionalizar é que fizemos de melhor. Está é a nossa singularidade. Teoricamente é o que nos torna humanos.
Entretanto, como a teoria difere da prática, não somos humanos coisa nenhuma. Somos uma tentativa. Somos um ensaio de ser humanos. Uma proposta de futuro: um vir-a-ser humano!
Psicanaliticamente falando, uma das propostas a serem pensadas é que somos sujeitos faltantes. O que isso quer dizer? Que somos pessoas que nunca estamos satisfeitos, pois sempre nos falta algo. Sempre tem um Q que não deu certo, que não foi lembrado ou que se perdeu para que todo o resto deste certo. Justamente essa partezinha que se faltou é o que nos impossibilita de sermos completamente satisfeitos com a vida.
Se estivermos num bom emprego, a vida social está deixada de lado. Se a vida social está uma alegria só, pecamos no amor. Se o amor está uma lua de mel interminável, não sobra tempo para trabalhar e assim sucessivamente. Isto quando não está tudo uma bagunça. Festeja no local de trabalho, namora nos eventos sociais e trabalha na cama! Independente de onde estamos mais satisfeitos (trabalho, circulo social ou amoroso) sempre tem um dos três (às vezes até dois) que está no modo standby, pronto para ser ligado.
Como somos uma metáfora da nossa casa – “não podemos” deixar todas as tomadas e luzes acessas – ou o desperdício de energia será alto. Também somos movidos a energia e não estou falando da energia cedida pela ingestão de açúcar, mas de uma energia psíquica que chamamos de libido. Exatamente isto, libido! Todos têm e todos sabem como funciona. Praticamente é uma equação matemática: libido alta + endereço para ela é igual à satisfação garantida.
Porém, somos uma metáfora da casa e não as casas Bahia, logo, satisfação garantida, no máximo lendo os poemas de Fernando Pessoa, com o risco de ficar insatisfeito.

2 comentários:

ana paula disse...

Texto Belíssimo! Diria, que belas questões que bailam esse psíquico!
Poesia fazendo questão...lindo!
Não estarmos satisfeitos... que sorte a nossa...assim nos movemos para ser, ter, ir para frente, nos move para o futuro.... para que a libido além de endereçada, possa ser vivida no tempo, que virá!
Mas há de se pensar que esse tempo que virÁ..não será apenas ele o paraíso...não é lá, onde não vivo ainda, que será melhor...ou que serei mais plena, ou mais satisfeita...O camimho, o presente, é potência para o futuro, e o presente vira passado a casa milésimo de segundo...Talvez esse fetiche do futuro, seja uma enganação perfeita, fantástica (de novo que sorte a nossa) para motivar a vida para vivermos mais, nesse mais tão pouco (em termos de tempo da vida humana)!
Essa moral que descolou, corpo, tempo e pensamento já é sabida....refletimos ela a cada respirar....a questão não é viver cada dia como se fosse o último, isso é lugar comum demais para quem pensa atemporal! Para o corpo que vive a atemporalidade!


saudades de conversar!
te amo

Leila Ghiorzi disse...

Às vezes eu acho que racionalizar é o problema todo. Por que não podemos simplesme viver?

E acredito que nunca seremos felizes por completo. É justamente isso que nos move, que nos faz buscar e conquistar novos objetivos. Quando você está totalmente satisfeito, é porque é hora de partir.